Pedro Doria | Weblog

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Democracia em ação

17/May/2008 · 5:44 · 26 Comentários

A Califórnia tá que tá.

Quebrando tabus.

O Senado estadual aprovou uma lei que permite aos funcionários públicos interessados que se filiem ao Partido Comunista.

Ainda falta aprovação da Assembléia.

→ 26 ComentáriosTags: EUA

Open thread de sábado

17/May/2008 · 0:01 · 91 Comentários

Bom fim de semana para todos nós. =)

→ 91 ComentáriosTags: Open thread

Os superdelegados de Obama

16/May/2008 · 17:50 · 15 Comentários

Quando escrevi o post sobre o drama republicano, esta manhã, Barack Obama precisava conquistar 139 delegados para garantir sua candidatura.

Sempre acompanhando o placar no alto do blog DailyKos, agora faltam 124 delegados.

Foram 15 superdelegados que declararam voto entre ontem e hoje à tarde – e o ritmo está acelerando.

Enquanto isso, dentro da campanha de Hillary Clinton, seus assessores já começam a fazer a lista dos motivos que levaram-na à derrota. O discurso de que ainda há um campanha em curso é só da boca para fora.

→ 15 ComentáriosTags: EUA

Neville Chamberlain, o Tratado de Munique,
Mahmoud Ahmadinejad, o Irã e o Hamas

16/May/2008 · 15:49 · 57 Comentários

Em 1990, Mike Goodwin estabeleceu o princípio reductio ad Hitlerum na Internet: ‘conforme uma discussão na rede se estende, a probabilidade de uma comparação envolvendo nazistas ou Hitler se aproxima de 1′. É a Lei de Goodwin. Os ânimos se exaltam e alguém terminará chamando o outro de Hitler. Na política do belicismo, relembrar 1939 é também um argumento sempre levantado – e George W. Bush não foi o primeiro, tampouco será o último a fazê-lo.

O argumento segue assim, sucintamente: o inimigo é muito perigoso, buscar conversa é coisa para ingênuos, é repetir o que lord Chamberlain fez com Hitler. Um, por assim dizer, reductio ad Chamerlainum.

O argumento, como cabe aos argumentos simplistas, além de hiperbólico é falacioso. Neville Chamberlain, o premiê britânico anterior a Churchill que o Partido Conservador gostaria de esquecer, de fato é responsabilizado por não ter sido agressivo o suficiente durante os anos 30 perante a Alemanha Nazista. Mas seu pecado não foi conversar, tampouco o de fazer diplomacia.

Seu pecado foi, em 1938, assinar o Tratado de Munique.

Como Hitler já demonstrava desejos imperiais, Chamberlain concordou em permitir que a Alemanha anexasse metade da Tchecoslováquia em troca de ele se restringir a isto. Bem – entregar um país de bandeja não adiantou de nada.

O problema não foi diplomacia: foi entregar um país em troca de uma vaga promessa de paz.

A comparação entre o Irã e a Alemanha Nazista (ou o Hamas e o Partido Nazista) não é inadequada apenas por conta disto. É inadequada também porque a Alemanha era, provavelmente, a maior potência militar de seu tempo. A relação diplomática se dava com um inimigo que, se quisesse, tinha chances concretas de conquistar a Europa inteira. (Como, aliás, quase fez.) O Irã não chega sequer perto. E para o Hamas, coitado, até a conquista da Cisjordânia parece ambicioso demais.

Isto não quer dizer que Irã e Hamas não tenham algum potencial de destruição. Numa região em crise, como é o caso do Oriente Médio, só há dois caminhos. O da guerra ou o da diplomacia. Sentar à mesa não quer dizer que os EUA estejam dispostos a entregar uma parte do Iraque ao Irã, por exemplo. Sentar à mesa quer dizer apenas que se pretende evitar a continuidade da guerra ou o risco de outras guerras.

Como Yitzhac Rabin disse, e o Elias costuma repetir cá nos comentários do Weblog, negociação se faz é com inimigos, mesmo. Com os amigos, ela não é necessária.

→ 57 ComentáriosTags: História · Iraque · Irã · Israel e Palestina

A dura vida de ser republicano

16/May/2008 · 11:00 · 28 Comentários

Foi um dia carregado politicamente o de ontem, nos EUA. À tarde, o presidente norte-americano George W. Bush comparou ‘aqueles que conversam com o inimigo‘ com ‘aqueles que conversando achavam que conteriam Hitler’. Era uma evidente referência a Barack Obama – e o Partido Democrata em peso, Hillary Clinton inclusa, partiu em sua defesa. Principalmente por um motivo: chefes-de-Estado não criticam cidadãos de seu país quando pisando em solo estrangeiro. É diplomacia básica.

Por conta da decisão da Suprema Corte da Califórnia, que considerou a proibição do casamento entre casais do mesmo sexo inconstitucional, os candidatos à presidência foram imediatamente consultados. Ambos, McCain e Obama, responderam o mesmo. Não é uma questão federal, cabe a cada estado decidir. É o oposto da posição de Bush – e abriu a porteira para a legalização na Califórnia.

‘Ambos os candidatos’ – e Hillary? A senadora baixou o tom nos últimos dias. Tudo indica que se manterá em campanha até a última primária, no início de junho, mas não apenas partiu em defesa de Obama contra Bush, ontem, como anteontem reiterou que não faz qualquer sentido algum de seus eleitores votar em McCain ao invés de Obama. Ou ‘Barack’, como ela tem preferido dizer. Ao que parece, as primárias continuam mas aluta fratricida entre os democratas terminou.

A campanha nacional tomou rumo, o presidente já critica um democrata em particular, e as últimas pesquisas dão conta que Obama ou Hillary, não importa, a vitória sobre McCain é garantida. (Com Obama é um pouco mais folgado.)

Durante os últimos meses, muitos analistas sugeriram que a briga interna democrata custaria a eleição. As próprias pesquisas chegaram a insinuar algo do tipo. Os indícios que os republicanos estão captando, no entanto, não se estes.

Tais indícios começam com as eleições extraordinárias para deputado federal – congressmen. Tais eleições ocorrem sempre que é preciso substituir uma cadeira vaga na Câmara, por morte ou renúncia. Na terça, no Mississippi, em um distrito no qual republicanos sempre vencem fácil, um democrata foi eleito. É a terceira vez que algo do tipo acontece este ano – e os republicanos da House of Representatives, a Câmara deles, entraram em alerta vermelho. A primeira ordem é se afastar imediatamente e o máximo possível de George W. Bush. As previsões de seus próprios estrategistas, no entanto, apontam para uma perda de 20 cadeiras quando as eleições vierem, no fim do ano. Os democratas, que já têm maioria na Câmara e no Senado, devem ampliar sua zona de conforto.

Do ponto de vista da capacidade de eleger republicanos para o Congresso, a crise já é mais grave do que a de Watergate.

Mas ainda há uma temporada de primárias em curso e Obama precisa garantir o voto de 139 na convenção de agosto, sejam eles eleitos, sejam superdelegados. Não é muito, um terço dos que ainda estão em jogo, e todo dia mais três ou quatro aparecem em suas fileiras. Ele e McCain estão apenas esquentando o jogo.

As reportagens a respeito da saúde de McCain, que não é das mais fortes – ele é um senhor idoso, afinal – começam a sair. Outras tratam de seu temperamento explosivo. Anteontem, pressionado, McCain recuou e estabeleceu um limite para a guerra no Iraque: em 2013, o último do mandato do atual presidente, acaba. O fim desta guerra que não leva a lugar nenhum, não há como disfarçar, é a preocupação da maior parte dos eleitores.

Para o candidato republicano, esta continua sendo uma eleição muito, mas muito difícil.

→ 28 ComentáriosTags: EUA

Open thread do Julio César que não era
e do casamento gay na Califórnia

15/May/2008 · 18:26 · 212 Comentários

É com vocês.

→ 212 ComentáriosTags: Open thread

Edson Aran, da Playboy para a Internet

15/May/2008 · 14:47 · 24 Comentários

Tem gente que tem o emprego que pediu a Deus e, ainda assim, procura sarna para se coçar. Vejam o caso de Edson Aran. É diretor da Playboy. O sujeito que escolhe que moça cá deste Brasil veremos nua a cada mês. E ainda por cima pode conhecer um bando de gente interessante. (Isso para não falar da bela vista que tem de sua janela para a cratera do metrô da Marginal Pinheiros.)

Mas, como seu lado satirista não dá vazão na revista, fez um site. É um site antigo e tradicional da rede brasileira. Não estava satisfeito, reformou tudo.

Acaba de reabrir a casa.

→ 24 ComentáriosTags: Internet · Mídia

Júlio César como ele foi

15/May/2008 · 10:44 · 46 Comentários

Caius Iulius Caesar

Um grupo de arqueólogos franceses descobriu em outubro, no fundo do rio Ródano, um busto de Júlio César feito em vida.

Não – não é pouca coisa. Todos os bustos que conhecemos de César foram feitos após sua morte, partindo de uma máscara mortuária.

Este César francês mostra um general com rugas, por volta de 50, perdendo cabelo. Ele não gostava disto – e, por conta, penteava todo o cabelo para a frente. Quando em grandes aglomerações públicas, usava uma coroa de louros para disfarçar as entradas.

A descoberta só foi anunciada hoje: o rosto de Caius Iulius Caesar exatamente como ele foi.

Atualização – Escreve Mary Beard em seu blog, no site do londrino The Times:

O que você faz se você é um arqueólogo e encontra um busto romano de boa qualidade no fundo de um rio?

A resposta é simples. Você pega todo livro de retratos e moedas romanas que encontrar até achar alguma figura famosa da história romana que pareça vagamente com seu homem. É trabalhoso, leva tempo. Mas o princípio é simples.

Por que se preocupar com isso? Porque todo jornal no mundo ocidental estarará interessado em sua descoberta se você disser com certeza que se trata de Cleópatra ou Nero ou Julio César (ainda mais se você disser que é a estátua mais antiga ou a única feita com ele em vida – o que, aliás, é conveniente no caso de a estátua não se parecer lá muito com todas as outras que representam a figura histórica.)

Ao que parece, este Weblog se empolgou um pouco cedo demais com nosso César mezzo-mezzo. Jornalista faz isso toda hora. dica do Josivaldo, nos comentários

→ 46 ComentáriosTags: História

Uma estante às quintas

15/May/2008 · 0:01 · 31 Comentários

Sapien Book Towers

→ 31 ComentáriosTags: Estantes

Enquanto isso, nos EUA…

14/May/2008 · 20:37 · 17 Comentários

John Edwards declara apoio a Barack Obama. E uma penca de gente sugere que ele seria um ótimo vice, capaz de trazer os votos da classe média baixa branca.

→ 17 ComentáriosTags: EUA

A queda de Marina Silva e a
elevação de Carlos Minc

14/May/2008 · 15:50 · 201 Comentários

Marcos Sá Corrêa faz, em O Eco, uma análise do que representa a queda de Marina Silva e a elevação de Carlos Minc para seu cargo à frente do ministério do Meio Ambiente. Trechos:

No ano passado, o PAC foi o atestado oficial de que Marina Silva tinha ficado para atrás, em seu próprio território. Na Amazônia, onde ela queria botar, com fé meio cega, mas sincera, assentamentos de sem-terra, reservas indígenas, populações tradicionais e outras trincheiras muito sociais e pouco ambientais das políticas de conservação da floresta, o governo resolveu pôr estradas, portos, canaviais e usinas, anunciados com ostensivo descaso pela ministra.

Não é de ontem que Marina Silva estava à sombra da ministra Dilma Rousseff, que é francamente hostil ao ambientalismo, como todo administrador essencialmente autoritário. Abaixo da Casa Civil, o ministro Mangabeira Unger ultimamente se arvorou de palpiteiro-mór do desenvolvimentismo na Amazônia, tomando as rédeas do PAS, que não passa de um PAC regional com outra sigla. Ou seja, até as funções indefiníveis do ministro de Assuntos Estratégicos passaram a valer mais que as da ministra do Meio Ambiente. Demitida pelo visto ela já estava. Faltava só demitir-se, antes que o segundo ou o terceiro escalão do governo atropelassem sua pasta. […]

Por dentro, sua demissão mudará pouco o governo. Ela já estava mesmo meio fora da equipe. Com o secretário estadual Carlos Minc em seu lugar, talvez diminua o ruído. Minc é o abre-alas da escola carnavalesca do ambientalismo brasileiro. Tende a evitar atritos com a vanguarda interna do desflorestamento, para procurar seus adversários o mais longe possível de Brasília. É longe do Brasil, no exterior, que Marina Silva fará falta. Sem ela, o presidente Lula perde a última ficha para freqüentar mesas de quem aposta no futuro da floresta.

→ 201 ComentáriosTags: Aquecimento global · Brasil

Open thread

14/May/2008 · 12:51 · 293 Comentários

Há quatro imagens novas no banner de título do Weblog.

E há uma que saiu.

→ 293 ComentáriosTags: Open thread

Sobre livros e bibliotecas

14/May/2008 · 9:33 · 61 Comentários

A Atlantic Monthly publica, este mês, uma resenha de A biblioteca à noite, do argentino Alberto Manguel, que está saindo enfim nos EUA. (A edição brasileira é de 2006.) É uma delícia para quem gosta de livros:

Ao mergulhar profundamente na vida dos livros, Maguel destila seu assunto com anedotas maravilhosas: o método de catalogação da China no século 10, que consistia em ordenar os autores por sua posição social; um dicionário mesopotâmio trazia inscrito um alerta a possíveis ladrões sobre a vingança de Ishtar; o excêntrico colecionador alemão Aby Warburg reorganizava sua biblioteca continuamente para que refletisse a composição de sua mente. A história mais comovente que conta é a do empréstimo clandestino de livros na ala para crianças de Auschwitz-Birkenau.

A biblioteca à noite é uma lembrança de tudo aquilo que livros – reais, físicos – representaram ao longo do tempo. São amigos, memórias, consolos, fugas para o pensamento. Enquanto objetos, carregam histórias e seu envelhecimento é, por si, uma lembrança de nossa mortalidade. Choramos, com Manguel, a destruição da civilização asteca durante a queima de livros da inquisição mexicana de Juan de Zumarraga. Também celebramos a sobrevivência de um pequeno livrinho de orações judaicas que ele encontrou num mercado de Berlim. ‘Do fogo, da água, do percurso do tempo, de leitores negligentes e das mãos de censores, cada um de meus livros sobreviveu para contar sua história.’ Sua impertinência nos ensina a respeito da importância de lembrar.

Os livros talvez estejam acabando. Não que acabarão para o todo sempre – mas são já, e cada vez menos, as fontes que consultamos para este ‘importante lembrar’.

→ 61 ComentáriosTags: Livros

Ainda sobre os drusos

14/May/2008 · 8:15 · 69 Comentários

Um bom amigo que, muçulmano xiita, não só entende do assunto como já escreveu um livro sobre o tema, enviou a seguinte mensagem a respeito dos drusos e outros grupos minoritários do Islã:

Os drusos são considerados pelos estudiosos do Islamismo como ‘Extremist’ Shi’a ou ‘ghulat’ Shi’a. Ghulat é sinônimo de radicais, extremistas. São um desvio, portanto. Ao lado dos drusos, há os alawitas da Síria, Líbano e Turquia. Também é uma seita ultra-secreta. Seus membros não podem sequer falar da religião entre si, mas apenas com o seu tutor. Um pai não pode falar dos segredos da seita para um filho. Deve entrega-lo aos cuidados de um tutor aos oito anos para que o seu catecismo seja ensinado (vai até os 17). Tudo, tudo é secreto. Oficialmente, eles se declaram xiitas.

O negócio engraçado é que Hafez Assad, ditador da Síria, quase não se empossa presidente porque a Constituição síria, desde a independência, determinava que a presidência é cargo exclusivo para muçulmanos. E criou-se a polêmica: os alawitas eram muçulmanos? Os sunitas, majoritários, diziam que não. Assim também os xiitas. Os alawitas, ao longo dos séculos, foram perseguidos por todos: sunitas, xiitas, todo mundo. Daí tudo ser secreto. Com os drusos é a mesma coisa. A melhor fonte para o assunto é o livro de Matti Moosa, Extremist Shiites: the Ghulat sects. Ali você vai encontrar tudo, ou quase, sobre drusos e alawitas. Quase tudo, porque tudo nas seitas é secreto.

É um bom complemento à discussão e dica de onde obter mais dados.

→ 69 ComentáriosTags: Islã

Open thread + leitores do Líbano

13/May/2008 · 15:16 · 308 Comentários

Há algum leitor no Líbano (ou na Síria) que gostaria de dividir conosco as impressões sobre o que ocorre nos arredores? Meu email pd@pedrodoria.com.br está aberto. A janela de comentários, também.

→ 308 ComentáriosTags: Open thread

O terremoto vivido pelos leitores
do Weblog na China

13/May/2008 · 15:11 · 16 Comentários

Pescando dos comentários abaixo, diz a Ana, que assina o blog Ana no Império do Meio e que vive em Xangai:

O que aconteceu ontem, mesmo com os prédios que o governo diz ter evacuado, foi uma trapalhada. Xangai é considerado um lugar seguro para terremotos. Mas, estando na Ásia, tão perto de locais como Mianmar e com histórico prévio de catástrofes, era de se imaginar que as pessoas saberiam como agir. O que aconteceu foi um monte de gente correndo como barata tonta, guardas sem saberem lidar com situação, nenhuma sirene tocando para avisar aos moradores para deixarem suas casas.

Através de uma mídia controlada, o Estado traça a sua lista de prioridade para políticas públicas e determina que tipo de informação os veículos de comunicação devem focar. Assim como poucos chineses sabem que se deve escovar os dentes após as refeições, também não sabem agir diante de um terremoto.

Na minha ex-cidade Wuhan, caiu até prédio.

A mortandade está grande, mas, apesar de não ter provas, algo me diz que haverá alardes e alardes para sufocar a questão do Tibete na mídia.

Ana fez dois comentários, e o acima é um condensado de ambos. No segundo, ela tece críticas à cobertura da televisão brasileira.

Zictor, autor do Mundo visto pelos leitores sobre a China, e que vive em Beijing, continua:

Sobre o fato de o povo não estar preparado para lidar com o terremoto, isso não me surpreendeu. Os chineses só aprendem batendo cabeça, faz parte da cultura deles. É difícil falar de prevenção aqui sem que eles ou alguém que eles conheçam tenham sofrido de um problema semelhante.

Assim, mesmo que a mídia fosse livre, a chance de que ela tentaria cavucar ‘responsáveis’ pela desgraça seria pouca. Os chineses não se preparam muito mesmo. Vão começar a se preparar agora, mas só perto da área afetada.

Da mesma forma, a mídia chinesa não tem motivos para tentar esconder o número de mortos. Eles têm uma razoável liberdade de manobra. A partir de informações conseguidas de fontes confiáveis (não posso dar muitos detalhes), a imprensa chinesa só aperta mesmo em tópicos politicamente sensíveis, como os 3 T’s (Taiwan, Tibet e Tian’anmen). Tirando esses campos minados, o que rola mais é auto-censura mesmo.

Os políticos chineses também não são burros. Assim como ocorreu quando houve a nevasca, Wen Jiabao (primeiro-ministro) e Hu Jintao (presidente) já estão no local, pra tirar foto e dar ordens. Os políticos locais também se mexem, é a chance de eles mostrarem serviço e conseguir promoções.

A mídia está focada nos esforços de resgate. Se alguma autoridade local fizer merda ou embaçar, tá lascada. Há uma chance de a mídia cair em cima. A responsabilidade vai toda em cima da pessoa e o partido sai quase ileso. Aqui, os chineses dissociam as autoridades locais do partido.

O importante é fazer a liderança do topo sair bem na fita. Os locais correm riscos.

Para concluir, discordo do PD, este NÃO é um teste para a abertura da China. Durante o Grande Salto para frente eles já haviam culpado desastres naturais por problemas econômicos. Pelos padrões dos chineses, as notícias mais importantes para o mundo podem ser liberadas. Somente o enfoque e a direção em que apontam as coberturas precisam ser ‘guiados’. E essa manipulação sutil dificilmente será percebida ou destacada pela mídia mundial.

Os comentários do Zictor também foram condensados – o completo está lá embaixo. Nós, eu e ele, percebemos a China de maneira diferente. E este é um bom debate. A China já é uma potência mundial – e pelo seguinte motivo: sua política externa determina o futuro de muitos países. Sanções a lugares como o Sudão são impossíveis sem a colaboração chinesa. E, enquanto a China mantiver a bênção sobre lugares como o Sudão, crimes podem acontecer. (Ser potência não é simples.)

O governo da China, como qualquer potência, joga dois jogos de imagem simultaneamente. O primeiro é interno e tanto Ana quanto Zictor estão nos dando uma aula sobre como os chineses se vêem e se compreendem. O segundo é externo. Perante a tragédia de Nova Orleans, o governo liderado por George W. Bush fracassou em ambos os jogos de imagem. Aparentemente, pelo menos no que toca à percepção interna, o governo chinês tem a crise sob controle. A percepção externa, que andou problemática por conta do Tibete, ainda está aberta.

→ 16 ComentáriosTags: China

Ricardo Calil no ar

13/May/2008 · 12:44 · 14 Comentários

Junta-se à turma do iG, acessível pelo bom e velho ricardocalil.com.br e também, agora, no ricardocalil.ig.com.br.

→ 14 ComentáriosTags: Blogosfera · Cinema · NoMínimo

Quem são os drusos e em que acreditam?

13/May/2008 · 11:07 · 38 Comentários

Tanto o Theo (que é muçulmano) quanto o André Fucs (que morou e entende da região) reclamaram de eu caracterizar os drusos como muçulmanos. Pois bem, não vai aqui qualquer teimosia: esta é uma polêmica antiga mas, que me perdoem os companheiros, não é uma discussão encerrada.

O CIA Factbook – que é o melhor almanaque aberto e confiável que há na Internet – também lista os drusos entre os muçulmanos no Líbano.

A Enciclopédia e Dicionário Kougan Houaiss, que eu costumava manter a meu lado na redação quando não havia Enciclopédia Britannica online, Wikipedia ou Google, classifica os drusos como ‘ismaelitas’, que é uma vertente do xiismo.

A Britannica, por sua vez, lava as mãos e não se posiciona: ‘é uma série de crenças religiosas nascidas dos ensinamentos ismaelitas às quais foram acrescidas elementos judeus, cristãos, gnósticos, neoplatônicos e iranianos que se combinam numa doutrina de monoteísmo estrito.’

Muitos especialistas muçulmanos, no entanto, consideram esta seita exclusiva tão estranha que não a classificam no Islã. Pergunte a um druso e ele dirá que é monoteísta e não passará disto.

Aparentemente, o Líbano passará a ser um assunto corriqueiro cá no Weblog e este grupo, 5% de sua população, terá papel importante nas decisões políticas – seja no papel de vítima, seja no de aliado de quem está no poder. O que são os drusos?

Os drusos são messiânicos. As religiões monoteístas surgidas no norte da África e Oriente Médio são todas como quebras-cabeças que costuram uma série de mitos comuns com maior ou menor intensidade. O messianismo, a idéia de que um líder desaparecido voltará para nos salvar a todos, é persa, vem do profeta Zoroastro. De lá, inoculou de leve os judeus quando do período de seu contato, e foi fazer parte, com força, da sopa cultural em que nasceu o cristianismo. O Islã, quando chega à Pérsia, também pega este messianismo forte local e assim nasce a vertente xiita.

No início do século 11, Hamza bin-Ali, um estudioso persa xiita travou contato, no Egito, com o platonismo grego e com os gnósticos – outra destas vertentes monoteístas que não chegaram a vingar de todo. A partir deste contato, Hamza bin-Ali passou a compreender Deus de uma forma diferente e, autorizado pelo califa al-Hakim, começou a reunir um grupo na mesquita local para pregar e rezar. Enquanto o califa esteve vivo, bin-Ali pregou o que quis, embora considerado herético pela maioria.

Tariq al-Hakim foi o sexto califa fatimida, descendente direto do casamento de Fátima, a filha favorita de Maomé, com Ali, considerado pelos xiitas seu primeiro imame. No Egito, al-Hakim foi intolerante com os muçulmanos sunitas, mas, mediante o imposto pago, deixou em paz as comunidades cristãs e judaicas. Embora tivesse umas idéias diferentes, bin-Ali era xiita, então não foi censurado. O califa foi assassinado em 1021 e sucedido por seu filho. E aí os drusos começam a se formar: para eles, o califa não morreu de fato mas apenas foi escondido. No dia do julgamento final, al-Hakim – o Mahdi – retornará para nos salvar a todos.

Após a morte de seu califa, teve início a perseguição dos drusos que deu forma final a sua religião. São monoteístas e só eles conhecem a verdade a respeito de Deus. Sua seita é secreta: um druso não fala dos ensinamentos para quem não é do grupo. Não aceitam conversões. Quem nasceu druso, não deixa de sê-lo; quem não nasceu, jamais virá a ser. Quando há perseguição política, é aceito que um druso renegue sua religião.

Se os drusos são uma vertente do Islã? Depende de como se vê sua história. A comunidade cristã original, chefiada por Thiago, irmão de Jesus, se considerava judia. Mas os anos se passaram e aquela seita se tornou uma religião independente. Quando decidimos que uma religião se separa de todo de sua mãe? No caso do cristianismo, foi o fato de que a religião começou a conquistar gente de fora, gentios. Ficou maior do que o judaísmo. Os drusos, no entanto, eram originalmente xiitas todos. Os mórmons são cristãos? Eles dizem que sim. Muitos cristãos dizem que eles modificaram de tal forma sua religião que, não, os mórmons são um caso distinto. Talvez sejam. É uma boa comparação com os drusos?

Cinco por cento da população libanesa é formada por drusos. Eles se dizem monoteístas e o seu é um grupo importante no balanço de poder do Líbano.

(Há outra polêmica: druso é com s ou com z? Ambas as grafias são aceitas, a com S é a corroborada por Antonio Houaiss.)

→ 38 ComentáriosTags: Cristianismo · Islã · Judaísmo · Oriente Médio · Religião

Roda Viva

12/May/2008 · 20:06 · 60 Comentários

Hoje à noite vou estar no Roda Viva, da TV Cultura, acompanhando a entrevista do ministro do Desenvolvimento Miguel Jorge.

O objetivo é testar um acompanhamento ao vivo do programa via Twitter.

Atualização – O Roda Viva está ao vivo pela web.

Atualização 2 – Comigo, no Roda Viva (fotos), estiveram Lúcia Freitas e Trecker. O Pedro Markun tenta explicar, em seu blog, quais as intenções de interativas da TV Cultura. Fui desconfiando que não ia funcionar. Mas deixar gente conversando a entrevista enquanto ela acontece dá samba. Melhor seria se uma coisa ou outra do que rola no Twitter pudesse chegar ao âncora.

→ 60 ComentáriosTags: Brasil · Internet · TV

O Hizbolá e o futuro do Líbano

12/May/2008 · 17:35 · 44 Comentários

De Robert Fisk, no Independent:

Quando o Hamas foi eleito para o governo palestino, o Ocidente o rejeitou. Então o Hamas tomou Gaza. Quando o Hizbolá foi tomar parte do governo libanês, os norte-americanos o rejeitaram. Agora, o Hizbolá tomou parte de Beirute. Os paralelos não são exatos, claro. O Hamas venceu as eleições de forma convincente. O Hizbolá era minoria no governo do Líbano. Quando o Hizbolá deixou o gabinete do premiê Fouad Siniora foi por conta das políticas pró-EUA deste e porque, com poucos votos, não tinha como mudá-las. Assim como os palestinos, os libaneses não querem uma república islâmica. Mas quando Sayed Hassan Nasrallah, líder do Hizbolá, falou que uma ‘nova era’ estava surgindo no Líbano, ele falava seriíssimo.

Nada está certo no futuro do Líbano. O governo, no entanto, se sustenta por um fio e o Hizbolá terá muito mais espaço no próximo regime. (Isto, se não decidir partir para o golpe e assumir o governo completamente.)

O Hizbolá representa os xiitas. Mas responder quantos são os xiitas, no Líbano, não é trivial. O último censo oficial foi há mais de 70 anos. O New York Times estabelece assim: 35% muçulmanos xiitas, 25% cristãos maronitas católicos, 25% muçulmanos sunitas, 10% cristãos outros, 5% muçulmanos drusos. Os xiitas, portanto, são maioria. Mas sunitas, drusos e cristãos costumam ter mais facilidade de se entender entre si.

Um Líbano dominado pelo Hizbolá teria que conseqüências para a região? (Por enquanto, Israel treme.)

O Hizbolá vem sendo financiado por Irã e por Síria. Os dois países têm interesses distintos. A Síria tem uma disputa territorial e geopolítica com Israel. Israel atrapalha militar, diplomática e financeiramente a influência síria sobre o Líbano e há uma velha briga pela posse das Colinas de Golan.

O problema do Irã, por sua vez, é ideológico, religioso e de uma geopolítica mais ampla. Teerã nega a Israel o direito de existir e vê sua oposição ao país como uma peça num conflito maior, com os EUA. Além do mais, o Hizbolá, como o governo iraniano, é xiita.

A população xiita, na Síria, é pequena e o governo, uma ditadura secular, usa com muita cautela qualquer discurso religioso. Prefere insuflar o espírito nacionalista. O Hizbolá o interessa porque mantém pressão indireta sobre Israel. Em outras palavras, a ligação Hizbolá-Síria é mais frágil do que a Hizbolá-Irã.

Já há em Israel quem defenda uma negociação com a Síria. Em troca de a Síria abrir mão de Golan, Israel não se opõe a uma tomada do Líbano. Melhor do que ter no vizinho um representante do Irã.

Hoje, é um cenário improvável.

Que Hizbolá seria esse no comando do Líbano? Um Hizbolá mais sírio ou mais iraniano? Para os países árabes, Egito, Arábia Saudita e outros tantos, a conversa com os sírios é amena; com o Irã, tensa. Um Irã potencialmente nuclear com o Líbano e boa parte do Iraque sob sua área de influência é ver surgir uma nova potência no Oriente Médio. Um cenário talvez bizarro que poderia fazer do mundo árabe e Israel curiosíssimos parceiros.

A ‘nova era’ prometida por Nasrallah não é apenas libanesa. Algo de muito diferente pode surgir nos próximos meses.

A única coisa certa: o Líbano segue sendo um peão no jogo de outros.

→ 44 ComentáriosTags: Irã · Israel e Palestina · Oriente Médio